Mulheres Imigrantes – Privilégios e Solidaridade

 

Eu sou uma imigrante.

Essa é uma identidade bastante nova para mim.

O Brasil é um pais construído com a imigração. Isso dá para ver caminhando na cidade onde moro, São Paulo. Nas ruas eu vejo pessoas negras, brancas, asiáticas, andinas e pessoas que são de várias misturas de etnias todo dia. Eu sou dos Estados Unidos, um país também feito por imigrantes e em que a imigração é um tema bem controverso. Eu, pessoalmente, sou um produto da imigração aos Estados Unidos.

Sou uma vira lata com ancestrais do México, Espanha, Suécia, Inglaterra e Alemanha. Estudava imigração na faculdade e dava aulas de inglês a imigrantes em Texas. Também trabalhava com o acesso a saúde para imigrantes com câncer nos Estados Unidos no meu primeiro emprego depois de terminar meu mestrado. Nunca pensei que eu ia ser imigrante também. Mas há mais de 3 anos, me casei com Brasileiro (também produto de imigração de uma mãe chilena e um pai mineiro), e me mudei para o país natal dele. Além disso, nunca pensei em quanto diferente seria minha experiência da maioria dos imigrantes no Brasil.

Minha experiência no Brasil tem sido maravilhosa, nota dez. Eu tive o tempo, os recursos, o apoio e o dinheiro para fazer tudo “certo” e ganhar meu visto permanente antes de vir para cá. Eu cheguei ao Brasil num avião com nove malas de coisas sem ninguém bater o olho. Eu tive a oportunidade para começar a aprender o português antes de vir para cá e já tenho um nível de português bastante avançado que me possibilitou concorrer e obter uma vaga de doutorado na UNIFESP. Pessoas ficam todas felizes para poder falar comigo sobre os Estados Unidos, inglês, como era minha vida na Califórnia e porque eu estou aqui.

Por quase um ano e meio eu não tive um emprego fixo, mas pessoas me oferecerem trabalho como professora de inglês pelo menos uma vez por semana. Eu moro num apartamento bom, num bairro lindo e com vizinhos que me tratam com muito respeito que nunca ficam chateados ou frustrados falando comigo se esqueço uma palavra de português ou se não entendo uma situação cultural aqui. Eu não tive que sair do meu país por causa de guerra, pobreza, falta de oportunidade, violência ou qualquer tipo de perigo. Eu me mudei para estar com meu marido sem pressa e por escolha. Eu posso sair do Brasil e voltar para minha família na Califórnia quando eu quiser. Nunca me senti rejeitada, odiada, reprimida, perseguida ou zoada por causa do meu status legal como imigrante. Porém, minha experiência como imigrante não é padrão. Eu sou imigrante, mas eu sou privilegiada. Na realidade, eu tenho mais privilegio do que muitos brasileiros aqui. Eu sou privilegiada por ser Estado Unidense, branca, heterosexual, cisgênero, da classe média, com alto nível de educação e por falar inglês como língua nativa.

Meus privilégios não devem ser privilégios. Respeito e dignidade não devem ser condicional de onde você é, a cor da sua pele ou por qualquer outra questão de identidade. Todo mundo deve ter moradia, comida, acesso a cuidados em saúde, educação e o direito de atravessar fronteiras pacificamente. Seria fácil dizer que eu tenho sorte por ter esses privilégios. Mas meus privilégios não vêm da sorte. Vêm de racismo, xenofobia, classismo e um sistema que sistematicamente afirma que as pessoas brancas, europeias, estado unidenses e tal são melhores, mais civilizadas, mais lindas, mais inteligentes e que só vão melhorar o país (ainda que muitas vezes são os países que mais aproveitam dos recursos naturais e trabalho mental e físico dos brasileiros e criam e apoiam os negócios mais exploradores no país).

Muitas vezes, pessoas esquecem que sou imigrante. Para meu doutorado, eu estou pesquisando sobre a questão da imigração e acesso a cuidados em saúde e quando brasileiros me perguntam sobre meu trabalho, frequentemente me perguntam se não acho que imigrantes no Brasil estão aqui para tirar vantagem do sistema, utilizando o SUS e a Bolsa Família. Me dizem que imigrantes roubam trabalho e recursos dos Brasileiros. Sempre é interessante ver a reação quando lembro a eles que eu sou imigrante também.

Hoje em dia, a imigração e o refúgio no Brasil são assuntos importantíssimos, e as pessoas e os políticos xenofóbicos estão falando mais altos do que nunca. Por causa de conflitos internacionais, crises sociais, econômicas e ambientais, a imigração e o refúgio estão crescendo pelo mundo inteiro e os direitos de certos tipos de imigrantes estão sendo precarizados cada dia mais. Eu sinto que como imigrante privilegiada é minha obrigação moral para trabalhar para reconhecer meus privilégios e os utilizar para aumentar as possibilidades de outros imigrantes terem as mesmas oportunidades do que eu.

Desde setembro de 2016, eu faço parte da equipe de base da Warmis: Convergência das Culturas. É um coletivo que consiste principalmente em mulheres imigrantes de outros países Latino Americanos. Foi através da convivência com as mulheres imigrantes maravilhosas do grupo que eu comecei a entender muito bem o peso do meu privilegio linguístico. Várias vezes elas me disseram que tinham que aprender inglês para poder avançar no seu trabalho, na vida acadêmica ou para ser ativistas mais preparadas. O conhecimento delas de espanhol e outras idiomas não foi valorizado nestas áreas.

Eu me coloco no lugar delas, pensando que difícil seria chegar no Brasil, ter que trabalhar muito para aprender o português, uma língua super complicada, e na hora de ter que procurar um trabalho melhor ou tentar entrar no mundo acadêmico ou participar num foro ativista, aprender que ser bilíngue com sua língua nativa não é bastante porque inglês é a língua franca, hierarquizada sobre todas as outras. Além disso, as aulas de inglês são super caras e quase inacessíveis para uma pessoa que faz pouco tempo teve que recomeçar a vida num país novo.

Foi assim, falando com uma amiga do coletivo, que decidi que queria fazer um projeto e dar aulas de inglês sem fins lucrativos para mulheres imigrantes. Não tenho como derrubar o privilégio linguístico sozinha, mas tenho como usar meu privilegio para ampliar as vozes e oportunidades de pessoas que merecem ser escutadas e valorizadas por meio de educação acessível que eu pessoalmente posso fornecer. É um jeito simples para eu poder praticar a solidariedade.

Então, começando em Agosto, como projeto da Warmis, vamos oferecer aulas de inglês para mulheres imigrantes e refugiadas, para elas terem melhores oportunidades no trabalho, no ativismo e na vida acadêmica. O custo mensal será de R$30,00, dinheiro que irá para contribuir no aluguel da sala de aula e para os materiais de ensino. Infelizmente, as vagas para as aulas serão limitadas e fecharemos a lista de alunos até o 22 de Julho. As aulas serão ministradas das 19h30 até 21h30 nas segundas-feiras começando dia 7 de agosto. O local de aula fica na Rua Vergueiro, 819, sala 1, Liberdade, ao lado do Metrô Vergueiro, da linha azul.

Para que a aula possa servir para pessoas de vários níveis de inglês, a primeira hora, das 19h30 até 20h30, vai focar na gramática e conversação básica (estudantes iniciantes e intermediárias). A segunda hora vai focar na elaboração de textos e conversação avançada (estudantes intermediárias e avançadas). As estudantes são bem-vindas para escolher o horário no qual elas querem participar. Se tiver qualquer pergunta ou dúvida, entre em contato no contato@warmis.org

pode se inscrever aqui:http://www.warmis.org/projetos/aulas-de-ingles-para-mulheres-imigrantes-e-refugiadas.html

Escrito por Sam Serrano 

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